
Queridas alunas e queridos alunos:
Lamento nao ter escrito ultimamente mas tenho enfrentado vàrios obstàculos. Peço desculpa pelo atraso. Como alguns de vòs sabeis eu estive na India em companhia de Sua Eminência Sangye Nyenpa Rimpochè, o nosso querido Amigo Espiritual. Dizemos no Budismo que o Amigo Espiritual, muitas vezes mal traduzido como o Mestre, è o nosso Guia, a Escolta o Timoneiro. Depois de termos a base trabalho e de refletir sobre se a possuimos ou nao, necessitamos alguèm que nos ensine. Na tradiçao Tibetana chamamos de Lama. Esse Lama deve ter determinadas caracteristicas para que o aceitemos ou entao pode conduzir-nos a um abismo ainda maior daquele em que nos encontramos. " Quando cego guia cego, caem ambos dentro de àgua"
Dizemos que è o Guia porque como nao conseguimos ver o caminho que estamos a tomar devemos confiar inteiramente no seu conhecimento do terreno, dos costumes das paragens, os bons hoteis locais onde podemos descansar, onde melhor se come. Ele deve conhecer inteiramente o percurso que queremos trilhar. È chamado de Escolta porque tambèm deve conhecer todos os perigos dessa mesma viagen e protegernos deles, tem de ter os meios e a força para o fazer. È um caminho com muitos ladroes ( as emoçoes negativas) e muitos perigos. Em terceiro lugar ele è o timoneiro porque como sò ele conhece o caminho ele deve dirigir o barco da nossa pràtica para que as intemperies e os caprichos do oceano do samsara nao nos tomem desprevenidos, e este nao deve ser conduzido por nòs. Muitas vezes nòs temos a tendencia de querer manter o controlo da situaçao, decidir o que queremos ou nao praticar, e como faze-lo. Como nao temos nenhuma ideia nem aonde nos dirigimos nem quais sao os perigos è impossivel chegar ao destino desejado. Assim como um cego teria dificuldade de, sem um guia, chegar a uma cidade no deserto.
Existem quatro tipos diferentes de Lamas: um com um corpo fisico ordinàrio, o boddhisatva e Nirmanakaya e Sambogakaya de Buda. Como a nossa mente iludida e trantornada pela acçao nos impede de entrar em contacto com os ultimos três aquele com um corpo fisico ordinàrio è considerado o mais compasivo dos quatro.
Devemos tambèm saber se este Lama està verdadeiramente preparado e autorizado para ensinar. Para isso deve ter um conhecimento profundo da doutrina e boddhicitta ou pensamento do despertar que foi traduzido como Compaixao, mas que no fundo è o desejo profundo de que todos os seres nao sofram.
Normalmente eu ensino sobre o Amigo Espiritual de uma forma abreviada e sempre com a convicçao de que os meus alunos saibam sempre comportar se com o Lama ( Sua Eminencia Sangye Nyenpa Rimpochè) e com os ensinamentos precioso que sao transmitidos pela nossa tradiçao. Juntamente envio uma imagem da Arvore de Refugio ( a linhagem de Mestres da nossa linhagem Kagyupa) e estarei disponivel para responder a qualquer pergunta que tenham sobre esta. Junto envio tambèm a web do nosso precioso Lama ( por favor pensem que è um Lama muito ocupado) http://www.sangyenyenpa.org/home.html
Um abraço a todos com o desejo que sejam felizes. E se algum mèrito existe nestas curtas palavras que sejam dedicados à vossa evoluçao espiritual
Yeshi Gyatso
12 comentarios:
Bem-vindo Guru. Que a evolução espiritual de todos retribua a generosidade da transmissão deste Ensinamento de Março.
A figura central da árvore de Refúgio Kagyud é o Buda Vajradhara e é com este que se identifica o Guru raíz? E onde estão Marpa e Gampopa na Árvore? Pode-se encomendar uma tanka com esta Árvore (talvez do Nepal)?
Olà Armanda! A figura central è realmente o Buda Vajradhara. E realmente quando praticamos a tomada de refùgio visualizamos dependendo da escola o Guru Raiz como o Buda Vajradhara ou Vajradhara como o Guru Raiz. Na nossa tradiçao existem tambèm os dois mètodos mas aquele que sigo eu è ver o Guru Raiz nessa posiçao da àrvore com a postura de Vajradhara, com o Dorje e o sino nas, respectivamente, mao direita e esquerda, e interiormente sabendo que è da mesma natureza que o Buda Vajradhara ( personificaçao da natureza ùltima de todos os seres).
Encima da sua cabeça està o primeiro Karmapa, precedido por Gampopa, Milarepa e Marpa. Se clicares na figura veras a àrvore de Refugio em grande e cada um dos Mestres tem o seu nome. Se quiseres quando for ao Nepal trago te esta Thangka ainda que te devo dizer que as Thangkas boas sao muito caras.
Muito obrigada, Mestre, pela muito lúcida e clara resposta às minhas perguntas. Se não me indicasses que clicasse na árvore, nunca mais a ia ver "crescer" e mesmo "responder" a algumas das perguntas.
Quanto à visualização do Guru Raiz, creio que para um aluno/aluna a praticar terá de receber mais instruções do seu Guru/Mestre. Gostaria de usar a mesma técnica que tu.
Espero vir a estar em condições de pagar uma boa Thangka da Árvore para me trazeres do Nepal, o que muito agradeço desde já. É justo que uma boa Thangka não seja barata, dado que pintá-la demora tempo e requer enorme concentração, atenção, conhecimento, habilidade, treino, etc. Não faz sentido ver-se o preço exagerado que se pede no Ocidente por um caandeeiro ou um par de ténis, etc. de designers ou estilistas "famosos" e depois não reconhecer que um artista nepalês (mesmo que não seja "célebre")que pinte uma boa Thangka merece ser recompensado pelo seu ainda mais valioso trabalho para a realização do qual teve de receber "formação" e praticar muito.
Olà Armanda:
O Guru Raiz è Sangye Nyenpa Rimpochè e nao eu. Sou apenas um professor e nao posso oferecer a protecçao e guiar os seres atè à felicidade. Sou um ignorante e nenhuma qualidade se encontra nem no meu exterior nem no interior.
Obrigada pela indicação de quem é o Raiz Guru que se deve visualizar na Árvore.
Peço desculpa por esta talvez ser uma pergunta tola de uma aluna ainda mais ignoante de que um "professor ignorante" que "por acaso" ensina coisas muito sábias que contribuem para a felicidade dos seres:
Para se conseguir fazer a visualização mentalmente, o que se deve fazer? Primeiro e durante algum tempo olhar bem para uma imagem grande da Árvore e também para uma fotografia do Guru Raiz até sermos capazes de visualizá-los sem o suporte das imagens?
O excerto a seguir, entre aspas, foi traduzido de um texto em francês e destina-se a todos que visitem este Blog.
[Início de citação]: "No plano individual, o lama é mais importante que o Buda, dado que o lama tem uma ligação directa com o estudante/aluno. É o lama que permite que compreendamos o caminho que leva ao Despertar/à Iluminação. É ele que nos dá os ensinamentos transmitidos pelo Buda há milhares de anos. Sem o lama não poderíamos compreender estes ensinamentos.(...)É mencionado nos Sutras que, nos tempos conturbados de hoje, nem sempre é possível encontrar um mestre que possua todas as qualidades. Trata-se de procurar um lama que reuna o máximo de qualidades possível. Tem de ter mais qualidades que nós próprios. É dito nos textos que se seguirmos alguém que tenha menos qualidades que nós, nos atrairá para baixo. Se esta pessoa tiver a mesma evolução espiritual que nós, iremos estagnar. É por esta razão que, quando procuramos um mestre, procuramos alguém que possua mais sabedoria que nós." [fim de citação]
Sendo aluna do Professor Gustavo há vários anos e tendo conhecido vários outros lamas, reuno as condições para 'saber' por experiência directa que o Lama Yeshe Gyatso está capacitado para fazer evoluir todos, desde que todos o 'escutem'.
Claro que se alguém já tiver atingido a Iluminação, não precisa de 'ver' qualquer qualidade nem no interior nem no exterior de nehum lama (hehe)!
Um abraço a conhecidos e desconhecidos
Olá Professor,
Desde já aproveito a oportunidade para agradecer ter-se deslocado a Portugal para nos privilegiar com a sabedoria do Dharma.
Num determinado momento do seu ensinamento falou da "preciosa existência humana". Eu entendi como preciosa por se tratar (como já anteriormente explicou em resposta a uma questão colocada pela sua aluna Teresa em 22.11.06) de um número tão pequeno de vidas humanas que verdadeiramente compreendem a natureza de Buda, e que por serem tão raros os seres que obtêm este conhecimento se tornam preciosos. Isto a mim parece-me perfeitamente lógico, se eu entendi bem, claro!
A minha questão é, não devemos nós considerar a "nossa" existência humana também como "preciosa"? Não considerarmo-nos preciosos em particular ou mais valiosos do que qualquer outra forma de vida sensível, muito menos mais valiosos que os detentores da "preciosa existência humana", porque que de todo não o considero, mas, considerar valiosa exactamente por ser tão difícil de obter, esta vida humana, e por isso a devemos cuidar e tratar o mais possível.
Digo cuidar por quê? Porque se temos esta rara e difícil oportunidade de reencarnamos como humanos, enquanto estamos neste corpo, que não é mais do que um invólucro, aproveitar esta oportunidade para evoluir como seres humanos que somos e utilizar essa evolução em beneficio de todos, com isto quanto mais tempo permanecer-mos em vida (física) mais poderemos e devemos fazer.
Tendo em mente que nada é permanente e que de um segundo para o outro podemos deixar este invólucro, também por este motivo o tempo que permanecemos com ele deve de ser útil, não só devemos de estudar e compreender a mente, mas também dar valor (não estético) a este pedaço de carne, ossos, pele ou cabelo, que compõe um corpo físico, que nesta vida em conjunto com a mente nos transporta de uma lado para o outro e que nos possibilita, em parte, fazer e pôr em prática o que a nossa mente nos “ordena”.
Professor Gustavo, se for possível e quando for possível, gostava de saber a sua opinião há cerca deste meu raciocínio e se há algum ponto correcto no mesmo.
Desculpe-me a minha ainda ignorante perspectiva sobre toda esta filosofia e conceitos.
No que me diz respeito, tenho a certeza que os seus ensinamentos vão ser muito úteis e importantes para a compreensão de todo o que me rodeia. Para mim é um privilégio poder contar com os seus esclarecimentos e orientações.
Muito obrigada por tudo. Com amizade fica um grande abraço da mais ignorante aluna
Carmen Ferreira
O termo vida humana preciosa insere-se num contexto determinado, ou seja na capacidade de podermos reconhecer a sua natureza vazia, lùcida e ilimitada ao nivel de experiências. No fundo todas as existências, humanas ou nao podem ser consideradas preciosas pelo facto de engendrarem estas mesmissimas qualidades, mas sò uma pode reconhecer. No Tibete o termo precioso ( Rimpochè) nao tem a mesma conotaçao que no Ocidente. Aì a preciosidade està relacionada à raridade e aos beneficios interiores e de satisfaçao interior que o que è considerado precioso possa trazer-nos. Nesse contexto è precioso o que nos dà felicidade ( completa satisfaçao e conforto connosco pròprios). Uma vida humana que nao controla a mente nao pode ser assim considerada de preciosa porque nao encontrarà a paz. No budismo dizemos que a felicidade se consegue com os bens materiais, com saùde e com amigos mas que existe um quarto ingrediente que è o mais importante de todos. Uma mente pacifica. Sem essa paz mental perdemos os amigos, a saùde e nao disfrutamos dos bens materiais. Para obter uma paz mental è necessàrio pràtica e compreençao. " Um bom coraçao nao se compra no supermercado" dizia Dalai Lama. No fundo isto è o que consideramos uma vida humana preciosa porque ela permite que realizemos aquilo que procuramos, a felicidade e que evitemos tudo o que tentamos escapar, ou seja o sofrimento. Ela è preciosa porque è como uma lamparina màgica, ou como dizem os tibetanos como a pedra que realiza todos os desejos. As outras existências embora sejam preciosas, sem a conjuntura perfeita poderao nao ser causa de uma tranquilidade mental, logo ser causa de desconforto, de insatisfaçao ou dukkha ( sofrimento).
Muito obrigada à Carmen por esta pergunta colocada no blogue e toda a gratidão ao Lama Yeshi Gyatso pela sua iluminadora resposta que também contribui muito para a evolução desta aluna.
Professor Gustavo,
agradeço pela resposta à minha pergunta e também por todas os outros esclarecimentos que transmite aqui no seu blog e fora dele.
Um abraço da sua aluna
Carmen
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